Castelo Mendo

Uma enigmática aldeia levanta-se num morro, poucos quilómetros a leste da cidade da Guarda. Em forma, lembra a inesquecível aldeia de Monsanto. No cabeço está a sua parte mais bruta: um forte primitivo com uma misteriosa igreja já aberta ao céu. Colina abaixo desenrola-se o casario que veio depois, quando uma nova muralha alongou a original até lá abaixo ao sopé. Chamam-lhe Castelo Mendo e está inscrita na rota das Aldeias Históricas de Portugal. Não só é muito mais do que um castelo, como é muito mais do que uma aldeia histórica.

Esse mistério que não vem nos livros, sente-se à aproximação. Sente-se no amoreiral cá em baixo, que servia a produção de bichos da seda: entretanto, a seda já lá vai, mas as amoreiras cá ficaram. E  sente-se a cada passo que avança até à entrada, em arco, majestosa e guardada por dois berrões em granito, antigos protectores e amuletos das gentes que, antes, aqui viviam numa espécie de comunidade bélica.  Esta parelha já está desfigurada. Será um porco? Um javali? Seja um ou outro, parece evidente que é uma encarnação terrestre de antigos Deuses celestes. A figura do berrão, por si só, já daria um livro, mas deixemos isso para outros textos que serão a seu tempo escritos.

Uma vez lá dentro, deambule-se. Não há uma casa que esteja a mais, nem uma que esteja a menos. Uma ou outra recuperou-se, com materiais autóctones, obviamente aperfeiçoados e de apuramento recente reconhecível. Vá-se subindo, passando o largo com o alto e imponente pelourinho, até que o monte acalme e cheguemos ao topo, onde a vista pode rodar que nem farol de alto mar. Daí se guardava a fronteira a sul de ataques da moirama. Daí se vigiava a fronteira a oeste de investidas castelhanas. É a fase um de Castelo Mendo que ali se fixa – guerreira e guardiã da raia beirã. A fase dois surgiu quando Dom Dinis alargou a muralha, e por consequência, a povoação. A pouca vida que por lá há, encontra-se neste segundo tomo do seu ciclo de vida.

Para lhe adensar a neblina, contam-se duas pequenas lendas sobre as gentes que correram estas calçadas medievalescas.

A primeira tem como base duas caras esculpidas nas fachadas de duas casas – uma masculina, o Mendo, e outra feminina, a Menda. Estão frente a frente e o povo fez delas uma história de amor, real ou fantasiada, que se calhar se mostrou impossível – a cara do homem encontra-se bem alta, fora do alcance, e na fachada do importante museu (antes tribunal), enquanto a da mulher está em posição bem mais humilde, abaixo da altura humana. Seria este Mendo o mesmo que Mendo Mendis, o alcaide que, segundo alguns, está na origem do nome da terra?

A segunda fala-nos de um medo que antes atormentava os aldeões que aqui viviam, logo que a Primavera aparecia. Um monstro (possivelmente um lobisomem, um dos seres mágicos mais amados nestas paragens) que fazia desaparecer um rapaz a cada ano. Até que um ermitão disse que para acabarem com tal fatalismo os rapazes deveriam ir, quase nus, prestar odes à Senhora de Sacaparte. Assim se fez e o monstro deixou de assustar Castelo Mendo. Conta-se que este ritual se fez durante bom tempo, e que na altura em que a Festa de Nossa Senhora de Sacaparte se dava, os representantes masculinos vindos de Castelo Mendo apareciam seminus, passando a chamar a este grupo a Procissão dos Nus.

Ao calcar as irregulares ruas desta aldeia coberta de bruma montanhosa, não é difícil vermos este tipo de episódios a acontecerem por ali.

This slideshow requires JavaScript.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=40.594297 ; lon=-6.948676

Comentários

(274 Posts)

Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.