Castelo de Monsanto

Elevando-se acima da aldeia histórica de Monsanto no topo do monte escarpado que alberga a povoação, a 768 metros de altitude, o castelo de Monsanto é uma maravilha arquitectónica que incorpora obra humana e obra natural, ao emergir dos enormes penedos do topo do monte como uma imponente fortificação militar. No caminho para o castelo, adivinha-se de imediato a dificuldade que qualquer exército inimigo teria em chegar ao castelo e invadi-lo, visto que a posição do castelo permite-lhe uma extraordinária capacidade defensiva, apropriada à localização de Monsanto perto da raia. A origem das suas primeiras fundações é uma questão ainda em aberto, pensando-se que lusitanos, romanos, visigóticos e árabes possam ter contribuído. No entanto, a forma actual do castelo é de índole templária, e assemelha-se ao estilo arquitectónico e defensivo que caracteriza outros castelos templários espalhados pelo país.

O castelo alberga diversos elementos culturais e históricos, como a Torre de Menagem que se identifica como o seu ponto mais alto, e a Capela de São Miguel, à volta da qual se encontram misteriosas sepulturas esculpidas na pedra, sepulturas essas que caracterizam imensos locais nas regiões beirãs e nortenhas de Portugal, e cuja origem permanece indeterminada, podendo providenciar uma indicação do carácter pré-templário das fundações do local.

Um dos símbolos da “aldeia mais portuguesa de Portugal”, o castelo está interligado com outros símbolos da aldeia, como as pequenas matrafonas de Monsanto, pequenas bonecas, que durante as primícias (primeiras colheitas do ano) e na Festa das Cruzes são atiradas das muralhas do castelo, com base na superstição local de que as matrafonas afastam as tempestades, mas demonstrando uma reminiscência do ritual pagão das vestais romanas em atirar bonecas de pontos altos como oferendas aos deuses.

Esta tradição, assim como outras, revelam o passado escondido nas muralhas do castelo. A referida Festa das Cruzes ou Festa de Santa Cruz é um exemplo de tal passado, o motivo para a festa é um episódio lendário de cerco do castelo, com várias versões, que diferem entre um cerco romano a forças aliadas a Viriato quando o castelo ainda era um castro, um cerco mouro a cristãos, ou até mesmo um cerco levado a cabo pelas forças de Castela. Segundo a lenda, em todas as variantes os habitantes atiraram das muralhas do castelo uma vaca contendo dentro do seu corpo todo o trigo do qual a aldeia ainda dispunha. Ao despedaçar-se nas encostas do castelo, a vaca libertou o trigo no seu interior, os inimigos pensaram que a aldeia ainda estava repleta de abundância em termos de alimento, e afastaram-se, levando a que hoje em dia ainda se celebre esse acontecimento. Claro está, as diferentes versões invocam a capacidade da memória tradicional em reter o passado longínquo, ao dividirem-se entre os diversos povos e culturas que passaram pelo castelo, e pelas diversas formas que este teve até chegar à actual imponente construção templária. O atirar da vaca, ele mesmo, é um símbolo do passado pré-cristão do local, visto que originalmente teria sido um ritual pré-cristão de fertilidade e celebração da Primavera que foi associado ao cerco do castelo de forma a obter uma forma mais aceitável para os moldes cristãos.

O castelo de Monsanto torna-se assim não apenas uma maravilha da Beira Interior em termos de fortificação militar imponente, mas também em termos de património cultural que evoca as raízes portuguesas mais profundas e longínquas, e que reflecte os diversos momentos da história do território que hoje em dia é Portugal.

Coordenadas GPS: lat=40.035638 ; lon=-7.114002

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Investigador da Universidade Nova de Lisboa nos âmbitos de literatura medieval, culturas e mitologias europeias.