Castelo de Evoramonte

Falar do Castelo de Evoramonte (por alguns, mais historicistas, considerado o Castelo da Paz, visto ter sido aqui assinado um cessar de hostilidades internas, pondo fim à Guerra Civil que opôs Liberais e Miguelistas) é, no fundo, falar de dois castelos. Ou até de mais de dois, se tivermos em conta que antes da cerca medieval houve outras que remontam à Idade do Ferro, e há até quem ouse atirar a hipótese de uma fortificação anterior, com origem no Calcolítico, isto é, com mais de três milénios de idade. Mas fiquemo-nos por aquilo que os olhos vêem preto no branco, que são dois fortes: um primeiro que abraça toda a antiga vila, de muralha medieval, reconstruído entretanto depois de um sismo quinhentista, e um segundo, incorporado no primeiro, que podemos traduzir sucintamente como a torre ou o paço.

Da muralha exterior guardamos recordações que podem vir de qualquer outra vila acastelada, e no Alentejo não faltam exemplos disso, como são os exemplos de Monsaraz, Marvão ou Mértola. Há, para vistas mais atentas, algumas novidades nesta cerca, integrada numa segunda linha de defesa nacional contra um eventual avanço castelhano, como o italianismo das torres circulares, que tinham também uma utilidade militar ao alargarem o ângulo de ataque para armas de pólvora, vulgo canhões.

Em relação à dita torre, iconoclasta que baste, a subir acima daquele outeiro alentejano, já reservamos um espaço de destaque na memória, porque mesmo sem termos qualquer formação arquitectónica, e esse é o meu caso, sentimo-la como peça diferente. Se nos cingirmos aos panos do Paço, ou seja, às fachadas, e a despirmos de ornamento, poderíamos estar a falar de uma vulgar torre de menagem, com a sua quadratura tão habitual no período medieval. Mas a verdade é que não há só os panos, há também as torres. E mesmo os panos sofrem um desvio em relação à arquitectura bélica medievalesca: têm ornamento, coisa que no apogeu da idade média era vista como inútil.

Começando pelas torres, estas são, a par com as da muralha exterior, circulares, e posicionam-se em cada vértice do Paço. Vendo-as em conjunto com as paredes que as unem, ficamos com a sensação de estarmos perante um poderoso baluarte. E talvez estejamos, mas a verdade é que este baluarte serviu mais o ego ducal do que propriamente uma causa beligerante. E assim partimos para os ornatos que o abrangem: dois relevos que desenham duas cordas e que parecem unir os bastiões ao quadrado da muralha, ao envolverem todo o perímetro da fortificação. Depois de darem a volta, as tais cordas são atadas no final com um particular, que por um lado pisca o olho ao Manuelino, por outro pisca o olho a quem sabe de heráldica, já que representa o Ducado de Bragança.

No fim de contas, a estética marcial desta cereja no topo do Castelo de Evoramonte é mais aparência que outra coisa, já que o seu maior propósito foi servir de residência de caça de gente rica. As canhoneiras que recortam o corpo mor do forte só lá estão para disfarçar.

Coordenadas de GPS: lat=38.771824 ; lon=-7.716267

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.