Caretos

Os Caretos são personagens mascarados que estão associados a festividades do nordeste transmontano, nomeadamente com as festividades do solstício de Inverno (sendo os de Podence os mais afamados), chamadas de “festas dos rapazes”, nos dias após o Natal, e com o Entrudo, na altura do Carnaval. A tradição está espalhada por diversas aldeias dos concelhos de Bragança, Macedo de Cavaleiros, Vinhais, Vimioso e Lamego. Tradicionalmente, estes mascarados apenas podem esconder rapazes solteiros por trás da máscara, e são caracterizados pelo uso de uma máscara com um nariz saliente, que pode ser feita de couro, latão ou madeira, e pintada de vermelho, amarelo, preto ou simplesmente com a madeira adornada por chifres ou outros adereços. Para além da máscara, os Caretos vestem um fato colorido feito de colchas com franjas compridas de lã ou outro tecido, sendo estas franjas maioritariamente coloridas de vermelho, amarelo e verde. À sua indumentária são ainda adicionados chocalhos, pequenos sinos com badalo que em geral estão na zona traseira da cintura. Costumam ainda andar com um pau longo ou cajado feito de madeira.

Figuras incontornáveis da cultura e folclore transmontanos, os Caretos realizam todo o género de travessuras e tropelias, ao mesmo tempo que dançam ao som de música tipicamente transmontana derivada da combinação de gaita de foles, bombo e caixa. O seu comportamento consiste de saltos, gargalhadas, gritos, atirar feno aos transeuntes, o “achocalhar” de raparigas solteiras (bater dos chocalhos nas raparigas, dando a imagem de uma estranha dança bamboleante), e o invadir das casas em busca de fumeiros, que lhes são entregues pelos habitantes, ou de raparigas solteiras a quem achocalhar. Dado o seu estatuto de figura tradicional, tudo é permitido aos Caretos, e ninguém pode levar a mal.

A origem destas figuras da tradição transmontana é enigmática, a tradição é milenar e pensa-se que poderá ser uma reminiscência viva de antigos rituais pagãos associados às raízes celtas do território que remontam ao período pré-romano, derivada da existência na região de tribos célticas ou celticizadas como os Gallaeci, Bracari e Vaccaei. Os Caretos levaram a diversas interpretações por parte de antropólogos, que os vêem como um rito de iniciação dos jovens, que passam do estado de consciência associado à adolescência para o adulto, e como simbólico para a comunidade do lado “sombra” do ser humano, do outro mundo, do sobrenatural e do louvor aos mortos. Os Caretos transpõem o lado obscuro do ser humano para a realidade, através de uma representação simbólica , e assim levam à libertação do lado mais trapaceiro e diabólico da alma humana, de forma a expurgá-lo e a purificar a comunidade para o novo ano.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=41.032057 ; lon=-7.846294

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Investigador da Universidade Nova de Lisboa nos âmbitos de literatura medieval, culturas e mitologias europeias.

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