Caretos de Podence

Os Caretos de Podence e o seu endiabrado Carnaval são o selo das máscaras transmontanas, ex-líbris de uma tradição que é comum a várias povoações do distrito de Bragança e cuja origem dificilmente se encontra num passado que é nebuloso em registos históricos.

Origem e Simbolismo dos Caretos de Podence

Sabe-se que é um ritual milenar. Sabe-se, também, que está ligado aos ciclos da terra-mãe. E sabe-se, acima de tudo, que sempre que um transmontano entra dentro daqueles fatos de cores garridas e tapa a cara naquela máscara demoníaca, está autorizado a fazer de tudo, inclusivamente de fazer o que não é autorizado.

Este é daqueles casos em que não podemos começar a história pelo princípio, pela singela razão de não sabermos quando é que ele existe. É possível, bastante possível, ao ponto de ser a hipótese mais acertada, que os caretos surjam ainda antes dos romanos cá porem pé. Talvez com diferentes movimentações, possivelmente noutras imediações, seguramente com diferentes máscaras.

O evento põe duas marcas no calendário: uma que festeja o encerramento do mortiço Inverno (de carácter pagão), outra que antecede a sobriedade da Quaresma (de carácter cristão). Em ambos os casos, há uma ligação imediata com a Primavera e a sua chegada às povoações, que lhes traz o período das sementeiras de volta e ficando a alimentação feita à base de carne à parte.

As máscaras e os fatos berrantes dos caretos revelam isso, nem mais, nem menos. O regresso à cor e à vida. O regresso à irreverência da terra, que mostra os seus verdes descaradamente outra vez, depois de três meses em hibernação. O Careto é uma versão antropomórfica dela, e daí ter permissão para tudo, qual diabo à solta. Tudo, excepto entrar igreja adentro, porque lá não se querem encarnações do que é malévolo. Correm pela aldeia, acima e abaixo, à procura de mulheres para as fecundarem – entendam o uso deste verbo de outra forma que não a literal, por favor. Por fecundar, devemos ler chocalhar, um abrupto movimento onde os caretos, com uma dança de cintura, fazem com que os chocalhos que carregam batam nas mulheres, inseminando-as. Mais uma vez, conseguimos encontrar o simbolismo da situação, sendo a relação dos caretos com as mulheres uma boa analogia com a fertilidade que a terra começa, naquela altura, a ganhar.

Os trajes destes diabos transmontanos são feitos de colchas vermelhas, decoradas com franjas de lã colorida, e máscaras angulares de folha de zinco, encarnadas, podendo ser ornamentadas com tinta. Por cima da cabeça, cobrem-se com um capuz de onde sai uma longa cauda, também ela usada como catalisadora do acto sexual aqui simbolizado. E depois, à cintura, o que mais importa, uma alinhada colecção de chocalhos e os seus repiques, os quais ouvimos sempre que, em grupo, os Caretos, quase todos solteiros, aceleram em direcção às mulheres.

Apesar de hoje podermos dizer que estão na moda, sendo já um dos mais reconhecíveis ícones do folclore e etnografia portugueses, convém lembrar que estiveram por um fio, por alturas da década de 70. A Guerra Colonial e a emigração limparam as aldeias transmontanas de gente nova, aquela que dá corpo à figura do Careto, e foi quase do acaso, aquando da realização de um documentário intitulado “Máscaras”, realizado por Noémia Delgado em 1976, que a tradição levou novo sangue. Hoje está fresca que nem alface, pronta para as curvas, e recomenda-se. É, até, um novo produto, menos autêntico porque menos virado para dentro – já é raro o Carnaval em Podence que não conte com a presença de uma RTP, os ditos estrangeiros estão agora em maior número do que os locais, e os próprios Caretos são agora um embrulho exportável, tendo figurado em Carnavais internacionais, como o afamado Carnaval de Nice, em França.

O abandono da terra morta, e por consequência, a chegada da terra viva: este, afinal, é o verdadeiro significado do Carnaval, pelo menos do Carnaval no hemisfério Norte, ao qual se juntou depois a visão cristã da coisa, que remete para a chegada da Quaresma e a necessidade de esbanjar todos os excessos antes de entrarmos nesse período de contenção. Foi depois transportado para o hemisfério sul e lá sofreu transformações óbvias, porque o significado do outro lado nunca poderia ser o mesmo, sendo lá Verão.

A vasta maioria das pessoas que o festeja por cá não se apercebe disso, e chega a ser, por vezes, hilariante, observar uma óbvia e decadente tentativa de imitação do Carnaval do Rio em algumas terras portuguesas, com tantas mulheres quase semi-nuas a darem a sua pele a temperaturas que chegam a bater nos zero graus. Felizmente que há Trás-os-Montes, a lembrar-nos o sentido natural das coisas. Bem haja o mês de Fevereiro transmontano, que, ano após ano, não tem medo de soltar os seus diabos nos Caretos de Podence.

Clicar para ler Entrevista de Carlos Carneiro ao Careto Luís Filipe Fernandes

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=41.591342 ; lon=-6.927373

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.

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