Caretos de Podence – Entrevista

Em cumprimento de uma tradição que se advinha milenar, o Entrudo de Podence é um dos exemplos mais tradicionais em Portugal das festividades que hoje em dia chamamos de Carnaval, mas que em Podence ganha uma outra dimensão. Em Podence, durante o Entrudo, estão à solta os Caretos de Podence, que representam uma das facetas mais icónicas destes mascarados característicos do Nordeste de Portugal. O Portugal Num Mapa teve a oportunidade de falar com o Luís Filipe Fernandes, um destes Caretos, que com apenas 16 anos cumpre orgulhosamente a tradição em Podence.

Luís Filipe Fernandes - Careto de Podence

Olá Filipe, antes de mais obrigado pela entrevista. Podemos começar por saber   como te tornaste Careto em Podence?

Olá, eu é que agradeço por me darem a oportunidade de promover e explanar, de certa forma, esta tradição ancestral da minha terra.

O ser careto surge de uma forma natural. A maioria dos rapazes da aldeia assim que “ganham pernas” começam a trajar e a invadir a aldeia junto dos mais velhos, o que confere um cariz familiar a esta tradição uma vez que o testemunho é passado de pai para filho.

Sendo tão novo, com apenas 16 anos, o que te leva a continuar esta tradição?

Ao longo do tempo quer o meu povo quer esta tradição foram sempre resistentes ao tempo, aos invasores, aos regimes políticos… O facto de conhecer a bravura e resistência dos meus antepassados motiva-me e impele-me cada vez mais a lutar, quer por esta tradição quer pelas raízes que aqui tenho. É algo único que só os que amam a sua terra e as suas origens poderão sentir.

Pensa-se que a tradição dos Caretos é algo que passa de geração em geração, ainda é assim que sucede hoje em dia?

Ainda assim se mantém como no início. Apesar dos excessos cometidos todos os caretos são como que uma família, cúmplices uns dos outros. Se algum de nós cai, é levantado de imediato para que possa continuar com todas as suas tropelias.  A tradição usualmente passa de pai para filho, daí vermos facanitos pequenos de mão dada com caretos. Tudo nesta tradição ocorre de forma natural, com o passar dos tempos, como as estações do ano…

É uma tradição que gostarias de transmitir no futuro às novas gerações?

Obviamente. O orgulho e a chama que arde cá dentro em relação às nossas tradições vai ser algo que transmitirei às gerações vindouras, é esse o trabalho de um careto: incutir os valores e o significado da tradição aos mais novos e desta forma entregar-lhe em mãos uma tradição escrita por os nossos antepassados que se perde nas páginas do tempo.

 Qual a sensação que te invade quando vestes a máscara e o fato?

Por norma sou uma pessoa um pouco introvertida e reservada mas asseguro que isso desaparece quando visto o fato e ponho a máscara. Para mim o ritual tem início mal começo a trajar-me. Assim que coloco a máscara, deixo de ser eu, o meu corpo fica entregue à energia que todos estes elementos místicos emanam sobre quem traja. O meu comportamento altera-se significativamente, a introversão é posta de lado e dá lugar a uma exuberância de irreverência capaz de desinibir até o mais tímido participante.

É de facto algo espantoso a forma mágica como tudo nos envolve, desde o traje até ao místico ambiente. Tudo isto é necessário pois o ritual tem tanto de sagrado como de profano, visto que o anonimato nos permite cometer excessos  mas em volta de toda a tradição existe uma certa reverência imposta pela figura enigmática do Careto.

É sabido que os Caretos são conhecidos por cometerem todo o tipo de tropelias e partidas às pessoas presentes na aldeia durante o Entrudo, para além do conhecido chocalhar das raparigas. Podes-nos explicar qual o significado do comportamento dos Caretos, e já agora, qual foi a reacção mais estranha que recebeste das vítimas das tropelias dos Caretos?

Numa análise detalhada, todos os elementos que possuímos estão conectados com a fertilidade (estudos indicam que os antepassados celebravam este ritual como oferenda ao deus da fertilidade -Saturno-Satyr). O acto de chocalhar as raparigas é como que uma fertilização das mesmas, simbolicamente falando.

Para quem não estiver acostumado com este ritual barulhento e envolvedor é sempre divertido e intenso o que por vezes causa reações inesperadas. A meu ver a reacção mais estranha que recebi foi da parte de uma habitante da aldeia, já de idade, que conforme invadi a sua casa ela começou a gritar freneticamente: “Sai demónio!!!! Sai demónio!!!!”- foi de facto algo marcante essa reação vinda de uma habitante local.

 De onde são oriundos os fatos e as máscaras que vocês envergam durante o Entrudo?

As origens desta tradição são ainda uma incógnita pois perdem-se no domínio dos tempos, mas após alguns estudos e algumas análises foram-se formando algumas especulações.

Crê-se que o traje tenha origem na pastorícia, visto que o traje é feito com uma manta de lã elaborada artesanalmente, muito usada por os pastores, quer no passado quer atualmente.

Quanto à máscara, essa remete-nos para um passado mais remoto, dado as suas semelhanças às máscaras que os pagãos primitivos usavam para representar os deuses nocturnos.

Nota-se alguma reverência e uma atmosfera de clímax quando se queima finalmente o Entrudo. Podes-me dizer qual a significância desse momento e o que representa?

Esse é o momento pelo qual se espera tanto tempo, pois a queima do Entrudo possui um significado ambíguo uma vez que é feita como que uma exorcização de toda a melancolia e todos os males acumulados pelo povo ao longo do ano mas também ocorre uma oferenda, por podermos ter sobrevivido mais um Inverno, graças à fertilidade celebrada no ano anterior.

É este misto de sentimentos que confere à queima do Entrudo toda a reverência e todo o auge do ritual.

Pensa-se que a tradição dos Caretos é reminiscente de uma velha tradição pagã, provavelmente Celta de origem. Que pensas sobre estas raízes, que estão possivelmente na origem da vossa tradição?

Como já referi anteriormente, as origens desta tradição perdem-se no tempo, uma vez que até os mais antigos da aldeia se lembram de ouvir falar nos Caretos a seus avôs e bisavôs porém surgem indícios que nos remetem para uma possível origem nos tempos da Ibéria Celta, onde o paganismo reinava. Esta teoria suporta-se na existência de semelhanças da nossa tradição com as oferendas aos deuses realizadas naqueles tempos e dada a altura em que se celebra, está bem evidente um ritual de celebração à fertilidade, visto que o longo Inverno acaba e começa a Primavera, tempo de renascer, de fertilizar os campos. Mais um ano de trabalho árduo para que quando o Inverno chegar nada faltar às gentes da aldeia.

Também as máscaras que usamos são semelhantes às representações dos deuses por parte do povo pagão.
Tem-se ,por isso, que esta tradição tivesse origem nesses tempos.

Obrigado novamente pela entrevista, e esperamos que continues a tradição durante muitos e bons anos. Para terminarmos, gostarias de deixar alguma palavra sobre o Entrudo de Podence para as pessoas que tenham interesse e curiosidade nesta tradição tão genuína do nosso país?

É uma tradição única com um ambiente envolvedor, místico, irreverente, capaz de fazer saltar os mais apáticos…

É aqui celebrado algo único, algo mágico, que a meu ver, quem tem interesse neste folclore tão nosso, é como que um local obrigatório a visitar no roteiro das tradições transmontanas.

Mais uma vez agradeço pela oportunidade que me foi dada e também por promoverem as nossas tradições ancestrais.

 

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Investigador da Universidade Nova de Lisboa nos âmbitos de literatura medieval, culturas e mitologias europeias.

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