Caretos de Lazarim

Os Caretos de Lazarim representam o ponto alto das festividades de Lazarim. Localizada perto de Lamego, Lazarim é uma pequena e bonita aldeia que, no Entrudo, por meados de Fevereiro, a par com os icónicos Caretos de Podence, se transforma numa festa onde abundam as acções erráticas e caóticas por parte dos caretos. Como já se referiu em outras secções relativamente estas carismáticas figuras do norte transmontano, os caretos representam uma provável antiga tradição pagã, que sobreviveu até aos dias de hoje.

Tendo sobrevivido ao advento do cristianismo, certas conotações ficaram no entanto associadas a estas figuras. Visto representarem a proximidade da Primavera, e como tal, um novo ciclo, na continuidade do simbolismo que também tem expressão nos caretos do solstício de Inverno em Dezembro, os caretos no Entrudo são o romper com a carga negativa acumulada durante o ciclo anterior, a libertação da tensão do que foi proibido pelos tabus da sociedade durante o ano. Isto verifica-se através de uma associação diabólica a estas figuras, possivelmente incentivada desde a introdução do cristianismo nesta zona do país. E é também particularmente a ênfase neste lado diabólico dos caretos que parece ter especial expressão nos Caretos de Lazarim. É que as tradicionais máscaras comuns a todos os caretos são especialmente diabólicas em Lazarim. Sem exibir pinturas coloridas como se verifica noutras zonas, as máscaras em geral exibem chifres, que variam em tamanho mas chegam a ser longos e enormes. Para além desta particularidade cornuda, que acentua de imediato o seu lado diabólico, estas máscaras são especialmente expressivas, com a madeira de amieiro das máscaras esculpida em faces que vão desde uma expressão bucólica ou cómica até um ar maligno e misterioso que inspira respeito e mesmo temor. A juntar a estas máscaras diabólicas, os cajados de madeira destes caretos também diferem especialmente de outros: a madeira encontra-se espiralada e esculpida com curvas, acentuando a aparência infernal destes Caretos de Lazarim. O seu guarda-roupa remete-nos para a natureza e a para a vida no campo, como criaturas saídas da própria paisagem e atmosfera em redor, variando entre as habituais cores que são observáveis noutras localidades e indumentárias mais características de Lazarim como trajes feitos à base de palha, barbas de milho ou folhas.

Como é habitual nestas figuras, durante os dias dedicados ao Entrudo, os jovens solteiros da aldeia e arredores (e hoje em dia raparigas também) vestem a sua veste e máscara de careto e andam pelas ruas a criar todo o tipo de desordem e a cometer todo o tipo de indiscrições, urrando, gritando, rindo e dançando, ao som de grupos de gaiteiros e zés pereiras. Pensa-se que em tempos mais ancestrais, estes caretos chegavam ao ponto de atirar dejectos aos restantes habitantes da aldeia e eram verdadeiros demónios, criadores das maiores obscenidades possíveis. Hoje em dia, durante o dia principal do Entrudo, ao mesmo tempo que estes diabretes andam à solta, as pessoas ajuntam-se para a leitura dos testamentos, declamados por um rapaz e uma rapariga, o compadre e a comadre, ambos vestidos de preto, que falam dos defeitos e percalços cometidos respectivamente por rapazes e raparigas da aldeia, que sejam solteiros, num verdadeiro festival de má-língua que visa o purgar dos feitos do ano que passou com vista a um novo ano, um “ritual” que em tempos pagãos teria servido de regeneração espiritual da comunidade. Tal “ritual” é finalizado com a imolação de dois bonecos representativos do compadre e da comadre, que imediatamente nos remete para um comportamento típico das antigas sociedades pagãs europeias, especialmente de cariz céltico.

O culminar da imponente figura dos caretos de Lazarim dá-se no último dia das celebridades do Entrudo, quando diversos potes embruxados onde se coze feijoada e caldo de farinha são colocados junto a uma fogueira comunitária sob o olhar guardião e diabólico destes caretos cornudos empunhando os seus infernais cajados.

This slideshow requires JavaScript.

Coordenadas GPS: lat=41.03143 ; lon=-7.845237

Fontes das Fotos: flickr.com ; público.pt

Comentários

(33 Posts)

Investigador da Universidade Nova de Lisboa nos âmbitos de literatura medieval, culturas e mitologias europeias.

2 comentários sobre “Caretos de Lazarim

  1. Lurdes Paraiso

    Portugal tem festejos de carnaval com uma riqueza histórica, artística e cultura…
    Tenho alguma pena não serem mais divulgados em detrimento dos carnavais copistas de brasileirada (respeito e gosto do carnaval no Brasil, mas é do Brasil, e só)…
    Parabéns a todos os que mantêm vivas, estas tradições…

Comments are closed.