Capote Alentejano

Desfazendo as dúvidas iniciais: um Capote Alentejano não é uma Samarra, como muita gente pensará. São primos decerto, e as semelhanças vêem-se de caras. Mas além de um não ir tão longe como o outro, também têm terras diferentes no que diz respeito à sua naturalidade.

Vestiu Reis e Presidentes. Serviu a monarquia e a República. Teve possível origem pobre mas evoluiu para peça de armário nobre. É do sul mas já anda pelo país inteiro. O Capote Alentejano é um dos mais emblemáticos trajes portugueses.

O aburguesado Capote Alentejano

Bastará olhar para ele e percebemos que não é um agasalho qualquer. Trata-se de indumentária de nobre recorte (o próprio rei D. Carlos a usava quando se deslocava à planície alentejana para caçar, nas imediações do Paço Ducal de Vila Viçosa), que transparece um certo status e que, por isso mesmo, era desejada por quem queria exibir publicamente alguma fortuna, ou pelo menos fingir que a tinha.

Um homem de campo no alentejo em dia de festaAinda assim, é possível que uma peça tão ilustre tenha tido inspiração na outra ponta do eixo, a classe pobre, nomeadamente nos pastores do Alto-Alentejo que pretendiam um casaco em burel que os cobrisse da frialdade e que, ao mesmo tempo, lhes desse liberdade de movimentos. Daí surgiu a ideia de se coser um traje longo mas sem mangas – ao invés, há uma espécie de pequena capa (ou sobrecapa, neste caso, porque se sobrepõe a outra, interior) que cai dos ombros até peito e braços. Essa característica é um dos registos mais expressivos do Capote Alentejano, e podemos observá-lo quer nos exemplares mais recentes, de fina costura, quer em postais ilustrativos de casacos pastoris do final do século XIX.

Terá havido altura em que ambos os trajes podiam ser vistos com frequência: o Capote Alentejano como hoje o conhecemos, em lã, usado pelos agricultores mais abastados; e um capote de recorte improvisado e mais descuidado, em burel, usado pelos pastores (também chamado de mata-frio). Um e outro teriam o propósito de proteger o homem dos ventos de inverno que correm as planícies e lezírias do sul, mas o Capote de recorte mais nobre tinha uma segunda função: afirmação social.

Outra particularidade do Capote Alentejano é a gola, que pode ser de pele de raposa ou de pele de borrego ou mesmo de ovelha (há modelos que substituem a pele por fazenda), e que dá para usar levantada ou baixa, conforme queiramos receber mais ou menos frio.

A Samarra Ribatejana e o Capote Alentejano

Uma e outra coisa são muitas vezes designadas da mesma forma. Tal equívoco é, como diz uma feliz expressão inglesa, um honest mistake. Muito facilmente confundimos um Capote com uma Samarra e vice-versa, ou pensamos que um e outro são apenas maneiras distintas de nomear a mesma coisa.

Contudo, a Samarra é um casaco que tem origem no Ribatejo e conta com três grandes diferenças: o facto de não cobrir o corpo inteiro, chegando, no limite, até aos joelhos (o Capote. pelo contrário, desce quase até aos pés); o facto de não contar com uma sobrecapa; e, por fim, o facto de ter mangas, coisa inexistente no Capote Alentejano.

De qualquer forma, há uma enorme afinidade entre ambas as indumentárias, e normalmente, onde se vende uma, vende-se a outra – há lojas em Évora, Arraiolos, Elvas que disponibilizam, agures entre os 150 e os 300 euros.

Hoje em dia, e apesar de ser vestimenta historicamente destinada a homens, já há vários modelos disponíveis para mulheres.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.