Capela do Senhor da Pedra

Vindo das costas a sul, quase a chegar a Gaia, aparece a Capela do Senhor da Pedra, na praia de Miramar (agora votada como uma das mais bonitas da Europa), mesmo em frente de uma alameda com o mesmo nome, onde putos e pais jogam à bola quando o tempo do norte aclara. A capela não está em plena praia. Está melhor que isso, em pleno oceano, sobre os ombros de vários rochedos que se levantam acima do Atlântico. A lenda conta que foi construída por alguém que sobreviveu a uma tragédia em mar alto e que foi salvo por uma onda que o carregou até estes penedos, pondo-o em sítio de fuga – a capela resultaria assim como pagamento de uma promessa. Poderia ser um exagero de um episódio que realmente tinha acontecido. São várias as capelas construídas por crentes que decidiram agradecer dessa forma um certo milagre que acham ter-lhes acontecido, e já aqui falámos da última das obras executadas no conjunto de capelas a que chamamos Santuário à Nossa Senhora do Desterro, perto de Seia, ter sido feita como agradecimento a um improvável escape a um naufrágio.

Mas não é o caso do Senhor da Pedra. Aqui, sabemos que a construção teve mão da própria igreja, provavelmente com o escopo de cristianizar um sítio que foi alvo de culto pagão, como aliás os azulejos na fachada da capela fazem questão de frisar. Subindo as escadas, estamos em pleno altar natural, poucos metros acima do nível da água. Contornando a capela para oeste, e se o mar estiver ligeiramente atormentado, somos brindados com a espuma das ondas que batem forte na pedra, num baptismo alternativo a que, certamente, estarão ligados alguns dos rituais menos católicos que sabemos terem aqui existido – e que, consta-se, ainda existem.

Para aqui se dirige a Romaria do Senhor da Pedra, que acontece no Domingo da Santíssima Trindade e se prolonga até Terça-Feira, comprovando o seu estatuto de espaço sagrado. Depois de feitas as promessas, seguem-se as cerimónias profanas,  com direito a cantaria e pândega no meio do areal de Miramar, acompanhadas com acordeão e danças de roda.

A capela é simples – passaria despercebida não fosse estar nesta pose de afronta às fúrias do Atlântico. No interior, tem umas pequenas escadas em caracol dando acesso a um piso superior. No térreo estão as habituais estatuetas de culto. Cá fora, nas rochas arredondadas que sustentam o monumento construíram-se mitos, e o maior de todos eles fala-nos de um D. Sebastião, que na sua eterna manhã de nevoeiro aqui cravou as patas do seu cavalo, num destes rochedos, justificando assim duas marcas arredondadas e paralelas que supostamente lá se encontram. Diz o povo que o Desejado acabou por voltar para trás sem entrar em praias portuguesas. E eu voltei para trás sem encontrar as marcas do cavalo desse rei que nos põe em espera. Talvez porque o mar não deixou.

Coordenadas de GPS: lat=41.068791 ; lon=-8.658482

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.