Capela de Nossa Senhora do Livramento

Já aqui falámos do Dólmen-Capela de Alcobertas e da Anta de Pavia como exemplos de certos santuários pagãos entretanto cristianizados pela adaptação destes a novo imobiliário, isto é, pela passagem de dólmens ou de antas a ermidas ou capelas. Nessa linha, juntamos agora a Capela de Nossa Senhora do Livramento à nossa biblioteca.

Como está bem de ver, a sua origem está longe de ser muito católica. Apesar da transformação operada lhe dar agora o nome de capela, tratava-se antes de uma anta, e são muitos os que ainda a tratam por Anta-Capela de São Brissos.

A capela de Nossa Senhora do Livramento esconde uma terna lenda pagãSerá difícil tentar visualizá-la na sua composição original – sobram-lhe agora apenas cinco esteios, no corredor ainda menos, e encontra-se agora colorida por tons alentejanos (branco cal e azul de mar). Um dos esteios foi retirado para ser substituído por uma muito simplificada porta. Aquilo que antes foi uma câmara funerária não passa agora de um hall de entrada para a tal pequena capela setecentista que se construiu a sul, como anexo, e onde se encontram, no seu interior, alguns objectos e promessas de certos devotos, bem como uma representação da Senhora do Livramento com o seu filho ao colo.

No entanto, soube recentemente que os cultos ancestrais ligados a este dólmen sagrado não se finaram, isto apesar de toda a pincelada cristã que levou por fora.

Primeiro, por ter sido dedicada à Senhora do Livramento, muito chamada pelas mulheres que estão à beira de dar à luz, numa associação de milhares de anos, que remonta ao carácter fecundo e feminino que estas pedras representavam – tal como os menires, embora esses do lado masculino. Segundo, e mantendo-nos neste espaço do apelo à natureza na sua vertente regeneradora, por ser a ela que alguns alentejanos recorrem quando a seca atinge a sua província, tendo por base uma lenda que descrevemos com a verdade possível.

Conta-se que esta Senhora do Livramento se envolveu com São Brissos, e que desta pecaminosa relação apareceu um filho. Contudo, São Brissos deixou-a, traindo-a com uma outra santa, a Senhora das Neves. E assim sendo, os locais, quando os meses sem água começam a ser contínuos, deslocam-se a esta capela para levarem esta senhora (deixando o filho por lá) até à Igreja de São Brissos, onde se encontra o santo com o mesmo nome. Colocam-na de costas para ele, seu ex-amado. E, segundo crença, as lágrimas que chora por estar longe do seu filho e próxima do homem que a atraiçoou passarão a aparecer sob forma de chuva, salvando estas terras do Alto-Alentejo. Parece evidente que esta promiscuidade entre figuras tão santificadas não cai nas graças da retórica cristã, o que significa que, neste caso, como em muitos outros, estes santos e santas não são mais do que heterónimos de Deidades ancestrais, de cariz pagão e coniventes com cultos à mãe-natureza.

Quem serão estes outros Deuses não sabemos. O que só ajuda a tornar a Capela de Nossa Senhora do Livramento ainda mais misteriosa.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=38.524617 ; lon=-8.129473

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.