Capela Árvore da Vida

Braga é a cidade clerical por excelência, não só do Minho mas de todo o país. Quem lá foi sabe do que falamos. As ruas são igreja-sim-igreja-não. E quando é igreja-não, é bem possível que se trate de uma capela. No entanto, e fazendo as devidas vénias a monumentos tão ricos em arquitectura simbólica, estando a Sé como sua escolha óbvia, há uma capela na cidade minhota que é ímpar, na evocação mais singular do termo. Mais: são poucos, mesmo contando entre os bracarenses, aqueles que a conhecem. Isto porque não anda cá fora. Trata-se de um lugar de culto interior, desenhada num segundo andar dentro do Seminário Conciliar de São Pedro e São Paulo, situado no Largo de Santiago. Para a ver, é preciso pedir para entrar, e contar com a boa vontade de quem a guarda.

E por que razão é este segredo mais que escondido de Braga uma obrigação, mesmo para quem, como este escriba, não é católico? Porque não há igrejas, nem capelas, nem basílicas, nem catedrais, iguais a esta. Uma Sé pode sentir o seu esplendor posto em causa por tão pequena preciosidade. Chamam-lhe a Capela Árvore da Vida, e árvore assenta-lhe tão bem no nome, tendo em conta que é toda feita em madeira de freixo e de carvalho e de buxo e de ébano (não há um único prego, apenas livros que pontualmente parecem ajudar ao equilíbrio, numa excelente alegoria sobre a harmonia do Homem). Uma obra máxima de carpintaria, portanto, numa fusão desconcertante entre teologia e arquitectura.

Os clichés estão lá todos. O crucifixo, o sacrário, o altar, o púlpito, o órgão, o nártex. Mas há tanto de diferente quando lá dentro, sobretudo na ascenção das paredes, se assim as podemos chamar, feita de forma oblíqua e meio espiralada, que nos dizem representar o longo caminho da descoberta interior, qual labirinto de iniciação que tantos exemplos temos vindos da idade média. E as paredes em si, que são feitas de tábuas e de ar, num junção ponderada entre a matéria e o transcendente (e aqui, tratando-se de uma obra católica, bem o podemos substituir por Deus). E a porta que não existe, porque toda a gente é bem-vinda. E o tecto que também não existe, pondo a descoberto a ponte do Homem com os céus. Nada, na Capela Árvore da Vida, está ao acaso. Não há uma lasca a mais e não há uma lasca a menos. Raro é o monumento religioso contemporâneo que me põe assim. Venham mais destes. Não a bem do meu catolicismo, que como disse não existe. Mas a bem do catolicismo dos outros e da minha espiritualidade.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=41.548062 ; lon=-8.429191

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.