Cão Serra da Estrela

Normalmente gabam-lhe a valentia e a inteligência, mas o Cão Serra da Estrela é, mais que tudo, um companheiro de pastores e das suas transumâncias nas serranias daquela que se considera ser o pulmão de Portugal – e que para mim poderia bem ser o coração também -, a majestosa e eterna Serra da Estrela.

Falamos deste cão com alguma nostalgia quando nos referimos a ele como animal de trabalho, de ajuda ao pastoreio. Um lado que, na cabeça de alguns, faz parte do passado e não mais existe. Mas posso garantir eu, possuidor de uma costela paterna da Beira-Alta, que ainda há pouco tempo vi um, lado a lado com o seu dono, um pastor que encaminhava cabras colina acima, no vale da encantadora terra de Loriga. E como eu vi este, outros existirão, no vale arredondado pelo gelo do Zêzere, nas encostas norte onde se fixam Gouveia e Seia, no seguimento que a montanha dá até chegar à poderosa e rija cidade da Guarda, e nos lados meridionais onde se conseguem avistar as elevações a diminuírem, a caminho do Fundão e da Covilhã, ora como cão-pastor, ora como cão de guarda. Se, nos meses de estio, fugindo ao bafo que se fixa nos vales, subirmos ao pico da serra que baptizou esta raça portuguesa, há forte probabilidade de os vermos a orientar o gado que se passeia nos campos verdes do Verão.

De cor acastanhada com nesgas de pelo negras, pelugem forte e habitualmente comprida (poderá haver cães de pelo curto, contudo) para aguentar as temperaturas negativas que a Estrela reserva para os meses de inverno, é reconhecido pela juba que parece sair abaixo do seu pescoço. Convém lembrar um requisito para o ter: espaço. Trata-se de uma raça de grande porte – um macho pode chegar aos 60 kg -, habituada aos acasos da natureza, à terra, e de difícil adaptação a casas com pequena dimensão.

Em tom de brincadeira, Manuela Paraíso, uma criadora, disse numa entrevista que não fosse o Serra da Estrela e não existiria sequer Queijo da Serra, porque eram eles, com a sua imponência e independência (uma característica tão típica nos cães-pastores) que protegiam o gado dos ataques dos lobos ibéricos – predador que anda agora afastado das Beiras, tendo-se deslocado para as elevações mais a norte. Esta brincadeira, funciona como as lendas, no sentido em que não as devemos levar à letra, mas escondem autenticidades óbvias e incontestáveis.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.