Calçada Portuguesa

A Calçada Portuguesa é o paradigma de um gosto que este país vai alimentando com a questão do ornamento de coisas aparentemente menores.

Essa apetência por decorar espaços de natureza funcional tem no uso do azulejo (para as fachadas) e do calcário ou basalto (para os pavimentos) o seu zénite.

Não conheço nenhum outro que entre nesta desnecessária preocupação, excepção feita a certos polos das antigas colónias portuguesas. Ainda mais quando se trata de um embelezamento estranho – valerá a pena tornar bonito o espaço que habitualmente está sujo de ser tantas vezes pisado?

A julgar pelo resultado, sim, vale. É mesmo essa a melhor forma de justificar por que razão a luz de Lisboa é tão gabada.

A Calçada Portuguesa teve uma espécie de ano zero em Lisboa. Mas espalhou-se depois pelo país. E por fim pelo Portugal das descobertas: Ipanema, Copacabana, Macau, Goa…

Origem da Calçada Portuguesa

A origem da Calçada Portuguesa, pelo menos na forma como hoje a vemos, é novecentista. Mas pode rebuscar-se uma certa ideia de calcetar as ruas com pequenos cubos de pedra noutros três períodos distintos: o período áureo mesopotâmico, o auge dos impérios gregos e romanos (e bastará ir a Conímbriga para o perceber – veja-se o já aqui exposto Labirinto do Minotauro), e a nossa expansão manuelina.

Contudo, olhando para os mosaicos que hoje vemos, a maior referência que temos é mesmo a Lisboa pós-terramoto. Talvez como forma de afirmação de uma cidade que passou de abastada a devastada, a Calçada Portuguesa viu num contexto de reacção à adversidade o terreno para a sua difusão.

Começou num pequeno pavimento junto ao Castelo de São Jorge, construído por prisioneiros de então. O padrão binário, preto e branco, foi um sucesso na altura, e estamos a falar da primeira metade do século XIX. Ao ponto de o castelo ser relegado para segundo plano – as deslocações àquela colina alfacinha tinham como propósito ver a tal calçada.

O sucesso daquele chão lisboeta foi o mote. Daí, partiu-se para alcatifar uma das principais praças da cidade: o Rossio. O padrão tinha qualquer coisa de ilusão óptica, numa repetição de ondas a que se convencionou chamar de mar largo. Aqui e ali, surgiram também novos tapetes de pedra, até que entra o século XX.

Um dos primeiros exemplos de Calçada Portuguesa no país: o Mar Alto do Rossio

É aí que a Calçada Portuguesa cavalga a galope por toda a capital e, em paralelo, pelo resto do país. Até outras cidades mundiais, rendidas ao tapete pétreo português, aplicaram o método nas suas ruas principais.

O mercado abriu a toda a diversificação que se possa imaginar. A Calçada Portuguesa era agora, mais do que uma tradição, um produto. Um produto bem exportável, acrescente-se.

A arte do calcetamento

Excepção feita às calçadas em basalto e às das zonas nortenhas do país, que se recorrem de rochas mais próximas, como o granito, a pedra vem quase toda do maciço calcário estremenho, concentrado na Serra de Aire e Candeeiros, usem quilómetros a norte da capital portuguesa. Pode vir em várias cores: preto, cinzento, rosa, e outros tons de menor frequência. É depois manufacturada através de guilhos que vão perfurando a rocha, dividindo-a em blocos mais pequenos. Depois, com a ajuda de um martelo, vai sendo talhada até que atinja o tamanho pretendido.

Mas além da matéria, uma calçada exige que um verbo entre em acção: calcetar.

Essa técnica é feita, também, com a ajuda de um martelinho que vai pregando cada pedra a um solo alcatifado com areia ou pó, desenhando-se os padrões com a aplicação de moldes no solo. Depois de compactadas as pedrascom a ajuda de um maço, as fissuras que ficam à mostra são cobertas por pó de pedra ou por uma mistela de cimento com areia. Por fim, varre-se e lava-se o resultado, deixando o quadro final o mais luzidio possível.

Em 1986 abriu uma escola para calceteiros. Infelizmente, conta com pouca procura, e mesmo os que lá se formam, raramente exercem. Queixa-se a maioria que não há uma valorização deste trabalho, que é basicamente o de um artesão.

Custo e manutenção

A extinção da Calçada Portuguesa é assunto polémico de há uns quantos anos para cá. Uns falam do investimento elevado que  um piso calcetado obriga a fazer, juntando a isso as obras de manutenção, que são mais frequentes do que num passeio normal. Outros dizem que um património tão vibrante quanto este não pode ser abandonado, custe o que custar.

A somar, está o problema da mão de obra, cada vez menos disponível, num trabalho duro, pouco reconhecido, e mal pago. Acrescente-se a isso uma preocupação de mobilidade que, por vezes, este encaixe de pedras põe em causa – e queixas a esse respeito há de todo o lado, desde pessoas com alguma deficiência motora a mulheres que não abdicam dos seus saltos-altos.

O preço por metro cúbico de Calçada Portuguesa é de aproximadamente 400 euros

É nesse sentido que se têm avançado algumas soluções alternativas, como reduzir o seu uso às zonas históricas de cada burgo – o que acaba por acontecer em algumas cidades onde a Calçada Portuguesa não foi tão perfilhada, como acontece no Porto.

Os padrões da Calçada Portuguesa

Dizer que escrevendo tudo o que há para escrever sobre os padrões de Calçada Portuguesa dava um livro é mentira. Dava muito mais do que isso.

Portanto, fico-me por alguns casos que acho importante pôr na mesa.

Além da forma, os mosaicos desenhados nos pavimentos públicos de Portugal servem como folheto histórico. Havendo paciência para isso, a verdade é que olhando para estes chãos se pode aprender muita coisa.

Desde o sublinhar da mitologia portuguesa na sereia do Chiado e no horóscopo na Praça do Império. À referência ao período dourado das descobertas, que anda em todo o lado, mas que se encontra em escala maior na caravela do Marquês de Pombal e na rosa-dos-ventos do Padrão dos Descobrimentos, ambos em Lisboa. Até uma achega modernista, com a criação de um QR Code em calçada, num curioso exercício digital.

Visto do alto do Padrão dos Descobrimentos, o chão apura uma complexa Rosa-dos-Ventos

Fora de Lisboa, aproveitam-se os padrões para emoldurar o brasão do concelho ou da freguesia. Desenham-se igualmente actividades ou animais ou lendas pelas quais as povoações são conhecidas.

Universal parece ser o uso de linhas arabescas, em repetição. Imitam o traçado da azulejaria nacional, em parte inspirada na gnose islâmica.

A nível internacional, a calçada serve tanto como cunho do portuguesismo de cidades tão díspares como o Rio de Janeiro ou Macau. Até Goa, que não tem calcário, arranjou maneira de a fazer através de pedaços de cerâmica partidos. E em Espanha, Olivença confirma o seu passado luso com um padrão bem português, onde assenta um pelourinho com o maior símbolo manuelino: a esfera armilar.

Mesmo alguns espaços comerciais apostaram nesta forma de banner publicitário, deixando o nome da sua loja escrito no passeio, à entrada.

No fundo, a Calçada Portuguesa é uma gigante obra de tapeçaria. Nua, repetida em padrões, ou decorada com símbolos, como em qualquer papel de um caderno, podemos por lá espraiar o que nos der na telha. Trata-se assim de uma transição literal do que outros chamam de escrito em pedra. A uma escala mundial.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.