Cacela Velha

Ir a Cacela Velha é ver antepassados de todo o tipo, desde Fenícios, a Cúneos, passando por Romanos e Árabes, e mais tarde aos ventos da Reconquista Cristã, que se fizeram sentir no extremo sul mas nunca abalaram as influências norte-africanas. Alguns historiadores põem até nesta zona o centro de onde foi outrora a mítica Conistorgis, capital dos Cónios, embora seja mais provável que esta se situasse no interior algarvio e não junto à costa. Depois, em tempos medievais, já se sabe: foi tomada por mouros e reconquistada por exércitos cristãos, embora só o tenha sido em definitivo à segunda tentativa, pelo lendário Paio Peres e a sua Ordem de Santiago.

Independentemente do que o seu passado escreveu, certo é que ao dia de hoje Cacela Velha é uma centelha de genuinidade num Algarve que se vendeu a outros interesses, que poderão ter alguns frutos, ninguém nega, mas que tem a brusca mudança de indentidade como outro lado da moeda. Ironia do destino, a aldeia acabou por ficar a ganhar com o esquecimento que o país lhe depositou nos últimos séculos, tal e qual como aconteceu com a cidade de Silves, causado pela ascensão de cidades como Tavira e Faro, ou pela dedicação que Marquês de Pombal deu a projectos pessoais da sua governação, como é o caso de Vila Real de Santo António que, bem ali ao lado e criada do zero, fez submergir a importância que Cacela Velha teve antes.

Mas larguemos os idos da história de Cacela Velha. Hoje, vale pelo que é: um magnífico reservatório de património que funciona também como anfiteatro caiado e virado para o Parque Natural da Ria Formosa e para a premiada Praia da Fábrica, com toda a sua diversidade e as suas estreitas línguas de areia que formam pequenos areais visitados por todo o tipo de gente, de hippies a yuppies. A igreja está ali a beijar a beira da falésia, de fachada virada a oeste, e daí dá a ideia de vermos o oceano inteiro. Junto a terra contam-se inúmeros barcos que a visão nos diz que estão encalhados naquela mistura sólida de água e areia, mas que a razão desmente e confirma que o pescador sabe bem o que está a fazer.

Uma dúzia de casas rasteiras, igreja central, forte oitocentista, ostras da ria no Casa Velha, e está feito: obra de excelência da simplicidade sulista. Cacelha Velha não é só uma espécie de must see do sotavento algarvio. É um lembrete às autoridades de como o Algarve inteiro deveria ser. E a parte porreira é que para ser bela é só mesmo preciso não fazer quase nada. A boa nova é que a UNESCO, por sua própria iniciativa, já deitou olho para elevar Cacela Velha a património mundial.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=37.1573048 ; lon=-7.54629449

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Fontes de Fotos: otartufo.com ; algarvepressdiario.wordpress.com ; cm-vrsa.pt

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.