Cabeça Relicário de São Fabião

Uma estranha relíquia de prata, com possível origem nos meados século XIII, representando uma cabeça à escala humana, foi descoberta em Casével, aldeia próxima de Castro Verde, no Baixo-Alentejo. Se isso não fosse já insólito o suficiente, houve surpresa: dentro dela, colado ao interior da prata, escondia-se um crânio humano.

Na altura, e estamos a falar do muito próximo século XX, os locais reavivaram memórias que lhes foram passadas por gerações anteriores, e não tiveram dúvidas: tratava-se da cabeça que, antes, se encontrava exposta numa janela da sua igreja matriz, e aquele rosto era o de São Fabião, o Papa martirizado pelo Império de Roma, numa altura em que o paganismo ressurgiu e afrontou a avalanche cristã.

Quem elaborou a Cabeça Relicário de São Fabião parece ter querido fazer dela isso mesmo, um objecto mágico, que desobstruísse a imaginação ilimitada do povo, para que este fizesse dela o que quisesse.

O nariz foi perfurado na zona das narinas e a boca também conta com um picotado de buracos, tal como os ouvidos, substituídos por o que parecem ser trevos, cada um com um pequeno furo. Daí surgiu a crença. Segundo a pequena comunidade que por aqui vivia, esta relíquia tinha propriedades curativas – os seus ouvidos buscavam os lamentos dos animais, o seu nariz pressentia as doenças que os ameaçavam, e a sua boca cuspia um sopro milagroso que os curava. E confirmaram ser frequente, num passado não muito longínquo, pastores passarem os seus rebanhos junto a ela para que o seu gado ficasse livre de maleitas. Em tempos mais antigos há registos de a transportarem para prados com o intuito de com ela se benzer o gado.

Em contrapartida, estudiosos dão como hipótese a utilização desta relíquia para fins curativos por parte de um saludador – uma espécie de mezinheiro institucionalizado e de boas intenções, ao contrário do que o imaginário popular faz dos bruxos, aliados do diabo. A ser verdade, isso poderia servir de explicação para o crânio que se encontra encarcerado dentro da máscara, já que não raras vezes, populares reutilizavam e enclausuravam este órgão dos saludadores para poderem continuar a usar o objecto enquanto activo curandeiro. Estes actos, sempre vistos com alta desconfiança por parte do clero, tornaram-se intoleráveis quando a Inquisição apertou, correspondendo esse momento àquele em que a cabeça-relicário entrou em espaço eclesiástico para não mais sair em profanação.

Encontra-se agora presa como tesouro sacro na Basílica Real de Castro Verde, impossibilitada de mostrar os seus dotes milagrosos aos poucos pastores que ainda sobram.

Comentários

(264 Posts)

Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.