Bonecos de Estremoz

Para lhe toparmos origem temos de ir até aos idos seiscentistas, quando os bonecos de Estremoz ainda não eram arte mas um passatempo que mais tarde se tornou artístico. Durante muito tempo se escondeu que as mãos que trabalhavam tais objectos eram femininas, porque tais obras deveriam, segundo o status quo da época, ser pertença dos mestres oleiros portugueses – seriam sempre os homens a base de sustento de uma família, nunca o contrário, e como tal, fez-se o possível para que o mérito não chegasse a quem de direito. Mas, caindo na real, os Bonecos de Estremoz foram incialmente um trabalho exclusivo de mulheres (as boniqueiras) desta pequena cidade alentejana, retratando com a precisão que o barro permite as tarefas do dia a dia.

Conta-se que a inspiração prima veio das imagens de culto esculpidas, então, em madeira. Daí partiu-se para a reprodução da lavoura do povo em barro, nunca abandonando o cariz religioso (as figuras de presépio, por exemplo, contam com tantos exemplares que poderemos afirmar tratarem-se de uma sub-categoria), por um lado, e adicionando-lhe uma componente crítica, por outro.

Esta forma de arte quase combaliu no início do passado século, e, passe o paradoxo, apenas rejuvenesceu graças ao esforço de uma velha senhora, de nome Ana das Peles, que, com o impulso de um homem do norte chamado José Maria de Sá Lemos, pôs o que a sua memória guardou cá fora, e tornou a ensinar como fazer os Bonecos de Estremoz no método original: ovalar o barro com a ajuda de ambas as mãos e, com rolos do mesmo, ir podando e acrescentando até que o corpo se complete; depois cortar uma base, também em barro, onde a peça principal deve assentar; seguir com a secagem e a cozedura a 900º; e, a finalizar, a pintura, dando a cor que falta à monocromática argila.

É interessante notar que, apesar de cumprirem uma necessidade que é, na sua essência, decorativa, os Bonecos de Estremoz acabam por ser também um comprovativo etnográfico, porque mostram a evolução do trabalho e de outro tipo de costumes do Alto-Alentejo. Mostram ainda, de outra forma, um eventual contexto histórico, já que há registos de bonecos que satirizam personalidades famosas que, pouco ou muito, se envolveram na história deste país, como por exemplo o que dá forma a Napoleão.

Algumas belas esculturas podem e devem ser vistas no Museu Municipal Professor Joaquim Vermelho. Outras colecções estão à vista de todos, em casas de tios e primas e famílias perdidas.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.

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