Barranquenho

Barranquenho é a língua – não oficial -, da zona de Barrancos, onde se inclui a vila com o mesmo nome e algumas povoações próximas. Conta com aproximadamente 3000 falantes.

Pouco importa para aqui sabermos o que é preciso para definir uma determinada forma de comunicação como língua ou dialecto ou apenas um falar. O Barranquenho existe porque é verbalizado, isto é, é posto em prática pelos locais como forma de uma pessoa comunicar com outra, tal como acontece noutros casos, quer oficialmente reconhecidos (como o mirandês, presente no Planalto de Miranda), quer não (como o dialecto castrejo de Castro Laboreiro ou a piação do ninhou de Minde e Mira de Aire).

Tal como na maioria dos casos de variação linguística em Portugal, excepção feita à piação, também o Barranquenho é um produto da sua posição geográfica, de carácter raiano, onde as influências espanholas muito se fazem sentir, sobretudo as de origem extremeñas, pedaço da província espanhola colada à vila de Barrancos. Ou seja, o Barranquenho não é mais do que uma combinação quotidiana das duas principais línguas ibéricas: o português e o castelhano, ambos nas suas acentuações sulistas.

Diz-se que a gente de Barrancos, por uma questão de isolamento ou mesmo por uma questão de vontade política, não acompanhou o processo de oficialização da gramática portuguesa, e que por isso ainda hoje o conseguimos ouvir como diferente. Diferente ao ponto de alguns teóricos, desconhecendo ou fingindo desconhecer a realidade histórica e geográfica de Barrancos, dizerem que o povo de lá não sabia falar português, nem sabia falar espanhol. Precisamente, falava uma fusão de ambos, que ali se passou a intitular de Barranquenho.

É frequente classificarmos, em tom ligeiramente jocoso, um português que mal sabe falar castelhano como falante de portunhol. Pois o barranquenho acaba por ser uma espécie de portunhol, mas não por falta de informação de quem o pratica. Antes porque as gerações acima sempre o usaram.

Estas misturas, como deve ser fácil de entender, podem acontecer em qualquer lado do mundo. Em Cabo Verde, ainda hoje, encontramos um cruzamento do português com línguas nativas. Nos Estados Unidos existe o famoso spanglish, com origem em Porto Rico, fundindo o léxico inglês com o espanhol porto-riquenho. Num canteiro da Polónia cruzam-se, não duas, mas quatro diferentes línguas – polaco, alemão, eslovaco e checo – combinadas num melting pot chamado silésiano.

Mas adiante para o caso nacional. Como se fala, afinal, barranquenho?

Uma das suas principais características é a remoção do “l” e do “s” e do “r” no fim das palavras, um fenómeno muito andaluz – “Portugal”, por exemplo, passa a “Portugá”, e “Barrancos” passa a “Barrâncu”. O “s”, quando corta a palavra, aspira-se – “Espanha” passa assim a dizer-se “Ehpanha”. Ainda na área de influência andaluz, há a queda do “d” nas últimas sílabas quando entre vogais: “ordenado” passa a “ordenao”. E o “j”, bem como o seu companheiro fonético “ge”, passam por vezes para o lado castelhano, usando-se nestes casos o “x”, tal como o “v” que passa a ouvir-se como “b”. O “e”, quando no final da palavra, lê-se “i”, condição que se estende para fora da vila de barrancos e que normalmente associamos ao sotaque alentejano.

Também o género de certos substantivos muda, conforme acontece do português para o castelhano. E mesmo os pronomes seguem a tradição do lado de lá da fronteira, antecedendo o verbo em vários casos – “vou-me” passará a “me bô”.

Não há, no entanto, um conjunto de regras que possamos definir como o Barranquenho, no sentido de lhe cortar as pontas e fixar um grupo de normas a seguir para que seja usado correctamente. Isto porque tal dialecto acaba por se passar exclusivamente por forma oral – ao contrário do mirandês, onde existe uma base literária a sustentá-lo. Esta falta de arestas traz alguns problemas quanto às ambições de torná-lo uma língua oficial em Portugal, mas acaba por o tornar mais rico enquanto falar popular.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.