Arruda

A Arruda (aqui especificamente a espécie ruta chapelensis) é um arbusto sul europeu. Tornou-se tão cara a Portugal que deu nome a várias terras cá no burgo, salientando-se a de Arruda dos Vinhos, junto a Lisboa.

Chamam-lhe a erva-das-bruxas, e daqui já conseguimos ter um vislumbre de todo o seu esoterismo

Descrição da Arruda

Identificar uma Arruda, ao contrário de outros activos arbustivos portugueses, não é tarefa que um botânico classifique como um brilharete. E nem sequer precisamos de a deixar florir para a conseguirmos denunciar.

Tanto pode aparecer do nada como parte de um planeamento de um bom jardineiro.

Em tamanho, o seu caule lenhoso consegue levá-la acima da nossa cintura.

Distingue-se pela folhagem, que é mais arredondada que a maioria. Assemelha-se, até, àqueles balões de diálogo que vemos na banda-desenhada. A cor das folhas é de um verde que se pode confundir com um certo azul de mar e são responsáveis por aquilo que é mais alvo de amor ou ódio na Arruda: o cheiro, intenso, notável a metros de distância.

Em termos de condições de cultivo, é bastante adaptável, embora prefira solos secos e calcários, com exposição solar mesmo que apenas parcial, muito à semelhança da Esteva, já aqui falada, embora o período de floração da Arruda seja mais tardio e mais longo, indo do início da Primavera ao final do Verão – razão pela qual, em Portugal, mais facilmente a encontramos nas zonas do centro e do sul, nomeadamente na Estremadura, sobretudo na Serra de Montejunto e Serra de Aire e Candeeiros, e no faixa sul do Algarve. Contudo, há outras espécies de Arruda, como a ruta montana, que podem ser observada em zonas mais frias e serranas.

As flores (tal como os frutos) são de uma aparência um tanto embrutecida, de um amarelo cor de lima, recortadas e com dedos a apontar para fora. Em determinadas posições, parecem dispostas morder um dedo incauto, fechando-se na hora certa. Acabam por contrastar com a suavidade boleada das folhas.

A erva das bruxas, como é conhecida popularmente

Propriedades da Arruda

O uso de Arruda enquanto substituto de fármacos data, pelo menos, da Grécia clássica. Na altura, era plantada nos templos e utilizada como forma de prevenção para doenças contagiosas. A mesma civilização chegou até a fazer dela acompanhante dos mortos ao Outro Mundo, por acreditar que ela afastaria todos os maus espíritos que bloqueassem o caminho. O mesmo pensamento tinham os romanos em relação às propriedades protectoras da Arruda, provavelmente por influência helénica.

Como curiosidade, manteve-se a plantação de Arruda junto a mosteiros cristãos muitos anos depois da civilização Grega e Romana, mas por razões diferentes: acreditava-se, à altura, que a sua ingestão funcionava como injecção anti libido, ajudando assim monges e frades na sua promessa de castidade. É difícil dizer se de facto é assim, isto é, se realmente funciona como travão ao estímulo sexual. No entanto, o que parece ser mais consensual é um seu outro atributo, muito pouco católico, acrescente-se: ajuda aos abortos.

Num contexto mais medicinal, há quem se sirva dela para curar a diarreia, dores de cabeça, tosse e expectoração, e inflamações várias. De senso comum – ou de senso popular, porque as coisas misturam-se -, é a ideia de fazer bem aos olhos.

Por fim, há que notar o seu papel de repelente. De insectos, maioritariamente os que se alimentam de outras plantas, o que justifica colocar-se Arruda enquanto guarda-costas de florações mais sensíveis. Mas também de gatos, uma peculiaridade que nos leva ao que iremos falar em baixo: o misticismo da Arruda.

Pode aparecer selvagem, enquanto planta autóctone. No entanto, são muitos os jardineiros que a usam como ordenadora de território.

A erva das bruxas

Uma das facetas mais conhecidas da Arruda é a sua forte carga mística. Não é por acaso que uma das suas múltiplas alcunhas é erva-das-bruxas.

De facto, conseguimos relacioná-la com diversas superstições portuguesas, e mesmo com determinadas festividades cíclicas.

Começando pelas superstições, era antes usada à entrada dos lares, normalmente colocadas nas portas de entrada, como forma de afastar o mau-olhado. Esse hábito, embora mais raramente, ainda pode ser presenciado no Portugal rural. Com efeito, são muitos os que a querem ver crescer nos seus jardins com o objectivo de obstar o Diabo.

E indo às bruxas que lhe entregaram um dos seus nomes populares mais comuns, era conhecido o seu uso por estas videntes da Idade Média, usando-a como forma de ver o futuro e enquanto planta premonitória.

Curiosamente, a Arruda era também usada nas igrejas, para que cristãos se protegessem dos sortilégios da bruxaria. E aqui se vê a democrática crença que se tinha neste arbusto, ao ponto de ser considerado, qual paradoxo, como quase virus e cura.

O Carnaval, que é, mais do que qualquer outra coisa, uma festa que acompanha o despertar da natureza depois do Inverno, faz-se acompanhar, em alguns ritos, desta planta. Também aqui conseguimos perceber a sua utilidade na perspectiva de travão à negatividade, porque também a fase morta da natureza tem um fim, e o fecho desse negro ciclo está simbolizado nos intensos cheiros primaveris da Arruda, um microcosmo da Primavera.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.