Alminhas

A construção de Alminhas é um fenómeno que encontrou terra fértil em Portugal, ao ponto de alguns autores o considerarem exclusivamente nosso – terei as minhas dúvidas, mas não deixo de corroborar a devoção que os portugueses têm com elas, e até que esse rito seja mais frequente por cá do que noutra paragem do mundo.

Celebram antigos Deuses e Génios dos caminhos, ou homenageiam familiares que perderam a vida em determinados lugares – as Alminhas são uma constante das estradas rurais portuguesas

História e significado das Alminhas

Sumariamente, são pequenos púlpitos de devoção popular. De um modo geral, e baseando-nos apenas numa perspectiva cristã, simbolizam as almas que esperam ser purificadas e anuladas dos seus pecados no Purgatório, antes de se elevarem, levadas por anjos, ao espaço de Deus. Portanto as Alminhas estão normalmente ligadas à morte de alguém, ou de um conjunto de pessoas. Serviriam assim para que os vivos, rezando ajoelhados perante elas ou dando-lhes uma esmola pelas almas, pudessem ajudar entes queridos a chegar ao céu. Numa outra perspectiva, tornam-se uma fonte de rendimento da igreja, que consegue reunir alguma maquia com base na existência de um espaço entre o céu e o inferno, o que não invalida a devoção que o povo faz por idolatria a determinados objectos.

No entanto, se quisermos aprofundar o seu significado histórico, poderemos chegar a outras conclusões, que nem sequer têm de refutar o significado que dei em cima. Há quem veja nos marcos romanos, de ordenamento territorial, uma primeira semente para o que as Alminhas são hoje. E há ainda uma teoria que defende uma origem pagã, votiva a antigos Deuses, que conta com apoiantes de renome, como Leite de Vasconcelos e Moisés Espírito Santo, e portanto de origem pré-Romana.

Duas estatuetas em bronze de Lares romanos - Protegem os caminhos e os laresSabemos que nesses tempos, os da Europa tribal ou imperial-romana, havia certos pontos de comunicação entre o povo e os Deuses. No caso de Roma e do seu vasto território, esses pontos estavam situados cá fora, junto à plebe, porque os templos, sendo a residência das Divindades, estavam reservados a uma certa elite protegida do Império. Eram sítios onde o agricultor ou o viajante vinha pedir orientação ou sorte aos Deuses Lares (foto ao lado) no que dizia respeito ao cultivo das suas terras ou à boa fortuna da sua viagem. Ora, esses objectos votivos que se encontravam nos caminhos eram, essencialmente, o genius loci, o elemento distintivo e sagrado de um sítio, e que mais tarde resultaram nas Alminhas e nos Cruzeiros. Quer as Alminhas, quer os Cruzeiros, eram, assim, uma cristianização desses antigos marcos de oração pagãos e a cristianização dava-se pela substituição do culto – se num caso se apelava às Deidades dos caminhos e das casas, no outro, já com Cristo na dianteira, rezava-se a novos dogmas cristãos, como a Paixão de Cristo ou a Encomendação das Almas.

Nesse sentido, podemos fazer uma equivalência, com um grau de proximidade considerável, entre ambos, as Alminhas e os Cruzeiros, sendo que os dois vêm a ser construídos em lugares simbólicos como encruzilhadas de caminhos, ou promontórios, ou cumes serranos, todos eles sítios que, ou por representarem uma mudança, ou pela beleza divina que proporcionam, encontram alguma sacralidade aos olhos populares.

Independentemente de tudo isto não nos devemos desviar da significância actual que uma Alminha tem, e essa é a sua funcionalidade enquanto objecto de fé – aquilo que empurra as almas do Limbo ou do Purgatório até ao destino celeste e que, ao mesmo tempo, acaba por redimir quem lá reza pelos outros.

As Alminhas são, afinal de contas, o ponto de encontro de cada pessoa com Deus. Ou de outra forma: tratam-se, muitas vezes, de pequeníssimas igrejas ao ar livre, individualizadas ao gosto de cada cristão. E nelas se apela à purificação dos seus entes, de forma a que esses atinjam os céus, ao mesmo tempo que se procede ao acto de expiação da reza.

Uma herança da devoção aos Deuses Lares

As primeiras Alminhas em Portugal

Crê-se que este hábito começou no século XVII ou nos finais do século anterior. A sua existência deve muito a um homem bom, de nome Luís Álvares de Andrade, conhecido por Santo Pintor, que produziu vários púlpitos em honra à salvação das almas e que deram o impulso para que muitas outros fossem feitos – ora pela igreja, ora por cristãos que, individualmente, encomendavam-nas para rezarem pelos seus.

Apesar de tal senhor ser lisboeta, parece que o grande foco das primeiras Alminhas a serem construídas foi no norte, nomeadamente na capital cristã portuguesa: Braga, mais especificamente junto à Capela de Santa Justa. De resto, é lá, no norte, bem como na zona mais setentrional do centro do país, que presenciamos maior número de Alminhas, bem ou mal preservadas. Não será grande surpresa afirmá-lo quando se sabe que o povo nortenho sempre foi mais incisivo na sua abordagem religiosa do que o do sul – algo que mesmo no século XXI conseguimos distinguir em tanta coisa, até em tendência política.

Essas Alminhas pioneiras não teriam a veia artística que algumas, mais recentes, têm. Seriam covas propositadamente escavadas na pedra, fosse essa xisto ou calcário ou granito ou outra. E lá dentro colocar-se-ia a imagem dos santos que intercedem pelas almas de corpos já mortos – o Arcanjo São Miguel, Nossa Senhora do Carmo, Santo António – ou, em alternativa, uma cruz.

Acabou por viajar pelo país inteiro, ilhas também, e, inclusivamente, ser promovida além mar, quando portugueses não dispensaram estes pequenos altares da vida religiosa fora do seu país.

A arte popular das Alminhas

Como se disse, mais do que qualquer outra coisa, as Alminhas são um monumento de fé, bem mais humilde e despido do que a mais simples das igrejas. A pergunta que se põe é se poderemos chamar arte a elas. Aqui as opiniões dividem-se, até pela própria controvérsia que a palavra arte implica.

Noves fora, e falando pessoalmente, que existe valor artístico nas Alminhas não tenho dúvidas. Umas mais que outras, como é evidente.

Seja lá qual o material usado – e, sabendo que a pedra é o preferencial, não nos podemos esquecer que a madeira e o zinco e até alvenaria entram no inventário -, há milhares de Alminhas registadas em Portugal (fora as que se desconhecem), e será snobismo a mais não considerar tal realidade um fenómeno que, tendo a religiosidade como origem, se torna também artístico. O facto de ser maioritariamente pensado pelo povo não lhe tira essa aura de querer chegar ao belo, e se para tanto lhe tivermos de espetar com a etiqueta de arte popular, pois que se espete, porque o belo de um esforçado agricultor não será o mesmo que o belo de um pintor erudito.

Poderemos dividir as Alminhas em várias categorias, mas idealmente separamo-las no que toca à forma e ao culto.

O fogo que purifica as almas no Purgatório, a antecâmara do CéuEm relação à devoção, teremos duas macro categorias: as que se dedicam ao culto do sufrágio das almas e as que são apenas palco de oração – e embora somente as primeiras se considerem realmente Alminhas, a verdade é que genericamente se atribui este nome a qualquer ponto de oração deste tipo. Mesmo dentro das Alminhas que servem para rezar pelos que esperam no Purgatório, poderemos sub dividir essas nas que são colocadas em pontos sacros naturais e nas que são construídas junto ao local da morte de algum familiar.

Já no que diz respeito à sua estética, será difícil abrir categorias para todas elas. Sabemos que há certas arquitecturas que são mais ou menos comuns a todas – um buraco (escavado ou em forma de caixa), um pequeno tejadilho a cobrir uma imagem ou um painel.  Em tudo o resto, estamos em campo aberto à criatividade. Ora há painéis de azulejos bem trabalhados com representações da Virgem ou do fogo purificador do Purgatório (ver imagem ao lado), ora, no extremo oposto, não há nada mais que não uma desabitada cova à espera de ser preenchida com velas votivas ou flores.

Mesmo o material usado pode ser autóctone ou não – a pedra escolhida é quase sempre aquela que se encontra em afloramentos próximos, mas há várias Alminhas feitas em matéria mais manipulável, como a madeira.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.