Adufe

Olhando para o aspecto de um adufe, mesmo um dos mais recentemente fabricados, é difícil não ver ali qualquer coisa de arcaico, na natureza dos materiais usados e na sua simplicidade estrutural.

É um quadrado, pequeno ou grande, montado por quatro tábuas de madeira (habitualmente de pinho) que serve de tabuleiro para lá se esticar pele de ovelha ou de cabra já preparada para o efeito (isto é, depois de passada por água e de lhe ser removido o pelo e o cheiro), sendo esta cortada e cosida, mantendo-se sempre tensa. Mas antes disso, antes do tal fecho, são colocados no seu interior objectos de pequena dimensão que lhe dão um som muito particular, que tanto podem ser milho cru ou areia ou guizos. Recentemente começaram a pôr caricas achatadas. O único detalhe não essencial ao seu lado funcional que lhe encontramos vem nos seus cantos: umas franjas de várias cores, feitas à base de flanela.

E esta ancestral simplicidade é comprovada pela idade que o adufe tem, sendo provavelmente já tocado na antiga civilização da Mesopotâmia e na antiga civilização Egípcia, muito antes da região do Médio Oriente e do Norte de África ficarem rendidos ao Islão. A ser verdade – e de acordo com algumas gravuras, tudo indica que é -, podemos dizer que o adufe é o mais antigo dos instrumentos tidos como tradicionais portugueses.

A teoria mais aceite indica que terá sido cá introduzido aquando da invasão islâmica. A atestá-lo está a própria palavra: adufe, de origem árabe. E também o facto de objectos muito próximos deste serem tocados no Norte de África. E daqui se chega à tese da sua origem sarracena. Contudo, como foi escrito em cima, e é mais ou menos por aqui que se geram as confusões, parece não ser obrigatoriamente árabe, já que o Egipto nem faz parte da Península Arábica, nem na altura era dominado por qualquer cultura dita árabe, porque afinal esta ainda nem sequer existia. Grosso modo, poderemos, à falta de melhor, classificá-lo como instrumento mediterrânico.

Por cá, e isto é testemunhado nos presentes dias, é usado como acompanhamento de cantos femininos, normalmente polifónicos, e concentrados na região da Beira Baixa, mormente nas aldeias próximas de Monsanto e de Idanha-a-Nova. Esses cantares envolvem quase sempre momentos religiosos ou telúricos – seja em igrejas ou em festividades cíclicas ou em romarias locais. No caso das festas religiosas, são de realçar as homenagens às Senhoras que as gentes beirãs celebram. A Senhora do Almurtão. A Senhora das Neves. A Senhora das Preces. A Senhora do Incenso. A Senhora da Póvoa. A Senhora da Azenha. Todas elas são musicadas por adufeiras de cada terra.

Os putos do sul interior beirão vão aprendendo com as gerações mais velhas. Muitos são ensinados pelos avós. Seguem a andadura repetitiva e grave, quase circunspecta, que o som dos adufes, quando tocados em conjunto e acompanhados ou não por vozes, gera. Os ritmos poderão variar entre binários e ternários. Coisas técnicas que dizem respeito aos estudiosos mas que pouco importam às velhinhas que se habituaram a estas vibrações por herança e não por livros.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.