Abutre do Egipto

A sua tendência para nidificar em vales torna o Abutre do Egipto (ou Britango) uma ave de rapina que podemos encontrar com maior frequência nas zonas de montanha, ou seja, no interior português, e com maior probabilidade entre os meses pós invernais e o início do Outono.

Trás-os-Montes, com enfoque no seu limite sul, será o melhor sítio para os observarmos na fase de reprodução. Sobretudo nas escarpas mais acentuadas sobre o Douro, como as que vemos no planalto mirandês, até se suavizarem perto de Barca d’Alva – é aí, nos abruptos vales durienses, que eles preferem escavar os ninhos. O mesmo para a fronteira sul da Beira-Baixa, junto ao Parque do Tejo Internacional, e daí até às Portas do Ródão.

Poderemos avistá-los noutras zonas do país, mas nesses casos poderão estar apenas de passagem, rumo a destinos mais quentes, quando os ventos outonais arrefecem a península e o norte de África lhes parece melhor casa. Já um pouco fora de rota estão as atlânticas províncias do Douro-Litoral e do Minho.

O sinal que melhor os distingue de outras aves carnívoras é a cauda, em forma de cunha. O tamanho também serve de marca de água – dos abutres que cá pairam, é o mais pequeno de todos, tendo, no máximo, pouco mais de meio metro de comprimento. O bico, amarelo, é curvado na ponta e a pelagem é esbranquiçada (ou acastanhada quando jovem), com tiradas pretas ao longo das asas.

Alimenta-se de animais mortos, nomeadamente gado, não fosse ele um abutre, e, em alternativa, de alguns répteis ainda vivos. O lixo dos aterros poderá igualmente servir de refeição. Contudo, a escassez de carne em decomposição, que vai sendo cada vez maior tendo em conta que nós, na nossa higiene humana, temos o hábito de não deixar carcaças animais entregues à mercê dos elementos, fez com que o número de exemplares diminuísse. Esquecemo-nos, por vezes, que esse serviço de limpeza orgânica (que é importantíssimo na prevenção da proliferação de pragas) não tem sempre de vir de nós, e que há espécies que estão cá para isso, mais não seja porque a sua sobrevivência depende disso.

A sua sustentabilidade no ar não deixa de ser curiosa. Para procurar alimento, voa em círculos, ao sabor das correntes térmicas, poupando-se a grandes esforços.

Em Trás-os-Montes, arranjaram-lhe boa alcunha. É o criado do cuco, ou ainda o almocreve do cuco. Porquê? Porque lá chega nos inícios de Março, e segundo o sempre criativo saber popular, vem cá para deixar as malas e os fatos do Cuco, que por sua vez aterra em território transmontano no final desse mês, ou no início de Abril, a anunciar a boa nova: a Primavera.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.