A Coca e as Tradições de Finais de Outubro

Embora frequentemente associada ao Halloween americano e à figura de Jack-O-Lantern derivada do folclore irlandês e britânico, a tradição de esvaziar uma abóbora e nela recortar orifícios de forma a criar a ideia de olhos, nariz e boca, com a finalidade de inserir uma vela no interior da abóbora para que se gere uma estética aterradora a lembrar uma caveira, não é uma tradição exclusiva do mundo anglo-americano e irlandês, e no caso galego-português, nem sequer é daí originária. Efectivamente, tal tradição verifica-se também na Península Ibérica e é antiquíssima, tendo no nosso país exemplos conhecidos na zona do distrito de Coimbra, na Beira Alta e no Minho. Provavelmente estendeu-se em tempos a Trás-Os-Montes e mesmo a algumas zonas Alentejanas. Embora tal tradição já não se encontre “viva” como outrora, tendo desvanecido a sua prática generalizada em finais da primeira metade do séc. XX, ainda se conseguirá porventura encontrar-se em aldeias mais isoladas minhotas ou beirãs, sendo que a nível nacional se lhes dá o nome de “Cocas” ou “Cocos”, e não é uma tradição restrita a abóboras, mas também a cabaças.

Nas palavras do investigador espanhol Rafael Loureiro, que fez uma extensa recolha de tais tradições por toda a Península Ibérica, a tradição de Outono de abóboras com formas de olhos, nariz e boca talhados na casca e uma vela a iluminar o seu interior, é uma tradição ancestral na Península Ibérica.

Significância e Mito

O iluminar de abóboras e/ou cabaças talhadas com os traços semelhantes a uma caveira é uma tradição que se põe em prática nas vésperas do Dia de Todos os Santos, e tal data não é coincidência, não por ser a data do Halloween conforme foi popularizado pela festividade americana, mas porque tal feriado no nosso país (e em grande parte do mundo ocidental cristão) é uma forma do cristianismo se sincronizar com o Samhain celta, que em tempos pré-cristãos seria também celebrado pelos povos celtas ou celticizados da Península Ibérica. Assim como o Dia de Todos os Santos se propõe a celebrar os finados, o Samhain celta implicava a abertura das portas entre o mundo dos vivos e o Outro Mundo, que na tradição celta era habitado por uma sobreposição de figuras mitológicas como os deuses e figuras do folclore como os Aes Sidhe ou fadas, assim como pelos mortos. Na noite de 31 de Outubro para 1 de Novembro o tempo parava, e tais entidades invadiam o nosso mundo, com os mortos a regressarem. As celebrações de Samhain implicavam assim a celebração dos antepassados, assim como o final da época da luz e das colheitas e o início da época escura, do inverno, da queda das folhas, associada também ela a uma “morte” simbólica.

O simbolismo das Cocas está associado a este contexto, visto ser uma tradição associada às vésperas de 1 de Novembro, mas é no entanto ambíguo, pois parece resultar de vários aspectos relacionados não só com o Samhain mas também com outros rasgos das culturas celtas. Uma associação clara é a representação simbólica nas abóboras e cabaças talhadas dos finados que retornam nesta altura ao mundo dos vivos e a celebração dos mesmos e da escuridão que se avizinha. Uma outra associação mais obscura é relativa à importância da cabeça para os povos celtas como o eram os Galaicos ou os Celtiberos: estes povos eram caçadores das cabeças dos seus inimigos, que as expunham no exterior das suas habitações, assim como as Cocas são expostas, ou as empunhavam espetadas nas pontas das lanças, algo que, como mencionaremos adiante, encontra eco na tradição de levar Cocas espetadas num pau pelas ruas. A própria palavra “Coca” parece ter como hipótese de origem etimológica o proto-celta *krowkā-, que significa cabeça, e na Galiza ainda hoje se usa a palavra “crouca” para designar uma cabeça. Esta possível raiz para a tradição das Cocas ganha ainda maior significância tendo em conta que na tradição celta a cabeça continha a essência, ou a alma, da pessoa, sendo que muitas lendas e mitos irlandeses e galeses incluem cabeças decepadas a retornarem da morte e a falarem. A Coca pode assim resultar da convergência destes dois aspectos, o regresso dos mortos simbolizado através da representação de uma cabeça, o veículo da alma e consequentemente o melhor símbolo para o seu retorno.

Na tradição oral e no folclore estas raízes ancestrais foram-se desvirtuando através de várias gerações como é apanágio das tradições populares e orais, e a Coca passou a ser sinónimo de uma figura do folclore homónima, que, tal como sucede com o Jack-O-Lantern das tradições de Halloween, é uma espécie de figura obscura cuja cabeça é a icónica abóbora ou cabaça com olhos, nariz e boca iluminados. Não se confunda esta Coca com outra figura homónima do folclore que designa uma serpente, popularmente reconhecida como a serpente morta por São Jorge e que é uma das figuras centrais da Festa da Coca durante o Corpus Christii em localidades como Monção. A Coca que aqui se menciona, enquanto figura do folclore, é uma figura sobrenatural associada a bruxaria, ao diabo e à escuridão, e tem uma função de bicho-papão: é utilizada para assustar as crianças quando se portam mal e na literatura oral há inclusive canções de embalar que a mencionam. Em tempos as suas associações diabólicas possivelmente eram uma ideia popular, visto que no Auto da Barca do Purgatório de Gil Vicente a personagem de uma criança identifica o diabo como o “Coco”, a forma masculina da Coca. As lendas relativas à Coca ditam que esta vigia as crianças do topo dos telhados (dai a expressão “fica à coca” ou “está sempre à coca”), e que é atraída pela desobediência das crianças. Quando uma criança é desobediente a Coca dirige-se a ela rapidamente pois consegue viajar através das sombras, e quando as consegue capturar devora-as vivas ou então rapta-as e transporta-as para um local desconhecido de onde as crianças nunca mais regressam, remetendo para algumas semelhanças com o Krampus germânico. As abóboras e cabaças talhadas de finais de Outubro passaram assim a ser também associadas a esta figura.

Tradições associadas

Registos de finais dos anos 40 e dos anos 60 do séc. XX descrevem tradições associadas à Coca como ainda sendo praticadas, assim como outros aspectos das celebrações de 31 de Outubro como o Pão por Deus, os quais remontam pelo menos até ao séc. XV e possivelmente têm uma raiz pré-cristã ainda mais ancestral. Tais registos mencionam que nas regiões da Beira-Alta em redor de Viseu era comum nas vésperas do Dia de Todos os Santos os rapazes das localidades andarem pelas ruas de noite a carregarem abóboras com olhos, nariz e boca esculpidas na casca e uma vela no interior, de forma a recriar o efeito de uma caveira flamejante. Estas eram espetadas em paus e assim empunhadas pelos rapazes, criando o efeito visual de uma procissão de caveiras luminosas, e remetendo-nos para o costume ancestral celta de empunhar cabeças em lanças e assim as exibir.

Em Coimbra e regiões circundantes, os registos mencionam um costume semelhante e contextualizam-no no âmbito da tradição do peditório pelo Pão por Deus, também chamado de Pão de Deus ou Pão das Almas, uma tradição que já em finais do séc. XIX era reconhecida por Leite de Vasconcelos e que é mencionada em registos escritos que remontam ao séc. XV. Tal peditório pelo Pão das Almas era normalmente feito por grupos de crianças e por vezes por pobres, sendo os grupos de crianças os que normalmente carregavam as Cocas acesas pelas ruas e andavam de porta em porta a pedir por pão e/ou guloseimas e bolos tradicionais, com a finalidade de oferecer ritualmente as oferendas alimentícias às almas dos defuntos, que regressavam nesta noite ao mundo dos vivos sob a forma de borboletas ou animais. Para além de carregarem as sinistras Cocas iluminadas por uma vela, estes grupos de crianças também se vestiam de negro e por vezes pintavam as caras também de negro, de forma a representar uma procissão de defuntos. Com tal aspecto assustador e mórbido, as crianças faziam então o peditório através do cantarolar de determinadas frases, com um tom sinistro, e agradeciam ou amaldiçoavam conforme o seu pedido fosse acedido ou não, com frases que seguiam igualmente uma fórmula. O investigador Rafael Loureiro conseguiu recolher alguns exemplos de tais dizeres, as crianças batiam às portas ou interpelavam pessoas cantarolando:

bolinhos e bolinhós
para mim e para vós
para dar aos finados
que estão mortos e enterrados
A bela, bela cruz, truz truz
A senhora que está lá dentro
sentada num banquinho
faz favor de vir cá fora
para nos dar um tostãozinho.

Caso o pedido das crianças fosse acedido, estas eram rápidas a agradecer com outras frases de fórmula:

Esta casa cheira a broa
aqui mora gente boa
esta casa cheira a vinho
aqui mora algum santinho

E claro está, frases de praguejar caso as pessoas se recusassem a oferecer algo:

Esta casa cheira a alho
aqui mora algum bandalho
esta casa cheira a unto
aqui mora algum defunto

O investigador Rafael Loureiro sublinha que há algumas variações  consoante a região, como é apanágio dos dizeres populares, “bandalho” é por vezes substituído por “espantalho”, e “defunto” por “papão”, mas a estrutura é nitidamente a mesma. Um aspecto que ressalta de imediato ao verificar estas tradições é que nos remetem para a popular tradição anglo-americana do “trick or treat”, que é claramente análoga desta tradição, demonstrando novamente que as tradições de 31 de Outobro para 1 de Novembro que é comum associarem-se a uma importação americana na realidade são tradições que já existiam no nosso país e que inclusive as precedem em antiguidade. As razões para tal ancestralidade prendem-se sem dúvida com as tradições pré-cristãs europeias do Samhain, que foram exportadas para o continente americano através de emigrantes irlandeses e escoceses, daí que se encontrem agora paralelos de uma tradição que na realidade já estava entranhada no folclore dos países que têm no passado a presença de traços culturais celtas, como é o caso do nosso país.

Efectivamente, Rafael Loureiro também recolheu evidências de que antigamente se praticava no distrito de Coimbra a tradição de “pôr a mesa aos defuntos” com doces e bolos tradicionais assim como pão, ou seja, deixar uma mesa com os mencionados géneros alimentícios para quando os mortos regressarem na noite de 31 de Outubro, pois é a noite em que tal sucede, uma ideia sem dúvida derivada da crença inerente ao Samhain da abertura de portas entre o mundo dos vivos e mundo dos mortos, e que tem paralelos ainda hoje na mesma prática durante o mesmo dia de 31 de Outubro em outros países de herança celta como é o caso da Irlanda. Embora apenas o distrito de Coimbra seja mencionado, é possível que em tempos tal tradição se estendesse a todo o território nacional.

Para além do uso das Cocas no contexto do peditório pelo Pão das Almas e nas procissões assustadoras da Beira-Alta, a Coca era ainda usada como máscara propriamente dita pelos embuchados ou serandeiros das desfolhadas minhotas em localidades como Santo Tirso de Prazins na zona de Guimarães ou Landim na zona de Vila Nova de Famalicão. Os embuchados são uma espécie de Caretos que representam o espírito dos defuntos e se disfarçam com um lençol ou capa com capuz e que usam como máscara a Coca, feita de abóbora ou cabaça, e que realizam as mais diversas travessuras e comportamentos rituais. Entre estes, inclui-se o colocar das Cocas em paus, com a tradicional vela no interior da Coca de forma a iluminar os olhos, nariz e boca da coca, e as deixar espalhadas em pontos de passagem e ermos para provocar sustos durante a noite, uma imagética que nos lembra facilmente a atmosfera normalmente associada ao Halloween, mas que tem aqui um exemplo bem mais antigo.

A tradição das Cocas e costumes associados durante as vésperas do Dia de Todos os Santos, juntamente com festividades tradicionais como a Festa da Cabra e do Canhoto, são um testemunho da ancestralidade de uma celebração que em nada deve à importação de uma reconstrução americana, e que na realidade tem profundas raízes na nossa identidade enquanto povo.

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Investigador da Universidade Nova de Lisboa nos âmbitos de literatura medieval, culturas e mitologias europeias.